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Além das atividades militares, Antônio Marcos desempenhou uma importante missão evangelizadora junto aos soldados brasileiros e ao povo haitiano. A vivência em um cenário de sofrimento e esperança transformou sua forma de enxergar Deus, a missão e o valor da solidariedade. Nesta entrevista, ele compartilha memórias e aprendizados que continuam marcando sua vida.
Como surgiu a oportunidade de participar da Missão de Paz no Haiti e qual foi sua função durante a missão?
Diante da crise política, financeira e administrativa vivida pelo Haiti, o Exército Brasileiro foi chamado para integrar a Missão de Paz. Fui convocado por corresponder ao perfil necessário para a missão. Como consagrado da Comunidade Shalom, também discerni esse chamado junto à comunidade e parti voluntariamente em julho de 2012.
Minha função militar era dar suporte à manutenção das viaturas. Na dimensão espiritual, como ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, eu auxiliava o capelão militar e o substituía quando necessário, contribuindo para a evangelização e a manutenção da fé dos militares em meio ao contexto de conflito.

Qual foi sua primeira impressão ao chegar ao Haiti e conhecer a realidade do país?
Após um ano de preparação, eu já tinha consciência do que encontraríamos. Sabíamos que alguns militares e até três padres que haviam participado anteriormente da missão retornaram ao Brasil com sintomas de ansiedade, pânico e depressão devido às experiências vividas.
Ao chegar ao Haiti, chamou atenção o contraste entre a beleza natural da ilha, cercada pelas famosas praias do Caribe, e a dura realidade da população. Ainda eram visíveis as consequências do terremoto de 2010. Encontrei cidades em ruínas, uma população extremamente sofrida, marcada pela pobreza, pela fome e pela desigualdade social. Enquanto os pobres viviam em situação de miséria, os ricos eram verdadeiramente milionários.
Quais foram os maiores desafios que você enfrentou durante o período em que viveu no Haiti?
Um dos maiores desafios era o risco constante de sequestros e emboscadas, já que ainda existiam conflitos na região.
Mas o que mais me marcou foi presenciar o sofrimento da população. Muitas pessoas viviam em barracas deixadas por missões anteriores, enfrentando condições extremamente precárias. Até hoje ecoa em meus ouvidos o pedido que frequentemente escutávamos: “Bombagai manje”, que significa “boa pessoa, comida”. Era um clamor de quem precisava do básico para sobreviver.
Existe alguma história ou experiência marcante com o povo haitiano que você nunca esqueceu?
Tive muitas experiências marcantes. Como responsável pela segurança do capelão, padre Campos, pude visitar congregações missionárias e comunidades locais.
Também evangelizava os haitianos utilizando desenhos e meditações simples que facilitavam a compreensão do amor de Deus. Durante minha permanência no país, conduzi um Seminário de Vida no Espírito Santo e acompanhei a formação espiritual dos militares, atuando na catequese e no aconselhamento daqueles que enfrentavam crises emocionais.
Uma lembrança especial é que muitos haitianos tinham curiosidade em saber quem era aquele homem que desenhava “as coisas do céu” para falar de Deus. Percebia-se uma grande sede espiritual e um desejo sincero de experimentar o amor divino em meio a tantas dificuldades.

Como era a rotina dos militares brasileiros na Missão de Paz?
A rotina era bastante intensa. Havia momentos dedicados ao treinamento físico, escoltas, transporte de água e alimentos, além de atividades ligadas à reconstrução da cidade.
Também reservávamos tempo para a vida espiritual, com missas, celebrações da Palavra, momentos de oração, aconselhamento e convivência. Existiam ainda períodos de descanso e lazer, quando era possível viajar para países vizinhos ou retornar temporariamente ao Brasil.
Permaneci sete meses na missão, um mês a mais do que a média habitual, devido às exigências da operação. Nesse período, também fui responsável pela guarda da capela e pela substituição do capelão em diversas celebrações.
De que forma essa experiência mudou sua visão sobre solidariedade, cultura e relações humanas?
A missão renovou profundamente meu amor a Deus e minha confiança em Sua Providência. Aprendi a valorizar ainda mais o pão de cada dia e a olhar com compaixão para aqueles que sofrem.
Meu coração se inflamou pelo espírito missionário.
Compreendi que somos chamados a sair das nossas próprias realidades para construir pontes e alcançar aqueles que aguardam uma manifestação concreta do amor de Deus.
Voltei ao Brasil com um novo olhar sobre as pessoas, sobre o tempo e sobre a própria vida. Passei a enxergar com mais gratidão a cidade onde moro, minha casa e tudo aquilo que muitas vezes consideramos comum.
Que mensagem você gostaria de deixar aos brasileiros sobre a importância da Missão de Paz no Haiti e sobre o povo haitiano?
A presença brasileira no Haiti foi muito importante. Foi uma oportunidade de aprendizado mútuo.
Aprendemos com a cultura e com a perseverança desse povo sofrido, mas também tivemos a oportunidade de compartilhar a alegria característica do povo brasileiro. Criamos laços tão fortes que os haitianos passaram a nos chamar de “Bombagai”, expressão que significa “bom amigo”.
O Haiti conquistou um lugar especial no coração de muitos brasileiros que participaram da missão. É um povo que não desiste diante das adversidades e que continua lutando diariamente por dias melhores.
Depois de morar no Haiti e criar laços com o povo haitiano, para quem ficará sua torcida no jogo entre Brasil e Haiti na Copa do Mundo?
Depois de todos os laços construídos com o povo haitiano, desejo que as duas seleções façam uma grande partida. Mas, sendo brasileiro, minha torcida continua sendo pela vitória do Brasil.
Acompanhe algumas imagens da missão:






