Por Patrícia Lessa
A saúde cerebral nunca esteve tão em evidência. Não por acaso, o tema do Dia Mundial do Cérebro de 2026 é “Saúde cerebral: acesso para todos”, escolhido pela Federação Mundial de Neurologia para chamar atenção para um problema que cresce em todo o planeta e ainda recebe menos atenção do que deveria.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Dados apresentados em 2026 pela Organização Mundial da Saúde mostram que as condições neurológicas afetam mais de 40% da população mundial e provocam mais de 11 milhões de mortes todos os anos. Essas doenças representam hoje a principal causa de problemas de saúde e incapacidade no planeta. Mais de 3,4 bilhões de pessoas convivem com alguma condição neurológica, segundo a OMS, Organização Mundial da Saúde.
Apesar desse cenário, o acesso ao diagnóstico precoce, ao tratamento especializado, aos medicamentos essenciais, à reabilitação e às estratégias de prevenção continua extremamente desigual, especialmente nos países de baixa e média renda. O primeiro relatório global da OMS sobre neurologia também evidencia a fragilidade das respostas nacionais diante do avanço dessas condições. (Organização Mundial da Saúde).
No Brasil, os dados oficiais mais recentes disponíveis em 2026 também reforçam a urgência do debate. O Relatório Nacional sobre a Demência estima que cerca de 2,71 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais convivam com algum tipo de demência, o equivalente a aproximadamente 8,5% dessa população. A projeção é que o número alcance 5,6 milhões até 2050, impulsionado pelo rápido envelhecimento demográfico do país. (Cofen).
Esses números representam pessoas que podem perder progressivamente a memória, a autonomia, a capacidade de tomar decisões e de realizar tarefas cotidianas. Também revelam um impacto que ultrapassa o indivíduo e alcança famílias, cuidadores, serviços de saúde e toda a sociedade.
Diante desse cenário mundial e nacional, uma mudança de perspectiva se torna urgente. Precisamos deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida.
Quando pensamos em envelhecimento, é comum imaginar que esse é um assunto reservado pessoas com mais de 60 anos. Mas essa percepção precisa mudar. O cérebro que teremos aos 70 ou 80 anos começa a ser construído muito antes, desde os primeiros anos de vida.
Cada experiência, aprendizado, desafio e hábito influencia a forma como o cérebro cria e fortalece conexões ao longo da vida. É por isso que cuidar da saúde cerebral não começa quando aparecem os primeiros sinais de perda de memória. Começa na infância.
A ciência já demonstrou que o cérebro possui capacidade de adaptação durante toda a vida. Quanto maior o repertório de estímulos cognitivos, sociais e emocionais, maior tende a ser a chamada reserva cognitiva, um conjunto de recursos que ajuda o cérebro a enfrentar com mais eficiência os efeitos naturais do envelhecimento e até mesmo algumas doenças neurodegenerativas.
Esse processo não depende de soluções complexas. Dormir bem, praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada, cultivar relações sociais, acompanhar fatores de risco para doenças crônicas e desafiar o cérebro regularmente fazem parte das estratégias reconhecidas para preservar a saúde cerebral.
Nesse contexto, a estimulação cognitiva ocupa um papel importante. Assim como fortalecemos os músculos por meio do exercício físico, também podemos exercitar o cérebro quando o colocamos diante de desafios adequados. Atividades que estimulam raciocínio lógico, memória, atenção, criatividade, linguagem e resolução de problemas contribuem para manter o cérebro ativo e ampliar sua capacidade de adaptação ao longo da vida.
Mas estimular o cérebro não significa antecipar conteúdos escolares nem sobrecarregar crianças com atividades. O desenvolvimento cognitivo acontece de forma mais eficiente quando respeita cada fase da infância, desperta curiosidade, propõe desafios compatíveis com a idade e transforma o aprendizado em uma experiência prazerosa.
Essa visão também amplia a responsabilidade de quem cuida das novas gerações. Famílias, escolas, profissionais da educação, gestores públicos e toda a sociedade compartilham o compromisso de criar ambientes que favoreçam o desenvolvimento cerebral desde cedo.
Também precisamos garantir que o acesso às estratégias de promoção e prevenção não seja um privilégio restrito a uma parcela da população. Se o tema mundial de 2026 é “Saúde cerebral: acesso para todos”, isso significa reconhecer que informação, diagnóstico, acompanhamento, reabilitação e oportunidades de desenvolvimento cognitivo devem alcançar pessoas de diferentes idades, regiões e condições sociais.
Quando falamos em saúde cerebral, portanto, não discutimos apenas o futuro da população idosa. Falamos da qualidade de vida de toda uma sociedade e da capacidade das pessoas de aprender, trabalhar, construir relações, tomar decisões e manter a própria autonomia.
O maior legado que podemos deixar para as próximas gerações talvez não seja apenas viver mais, mas garantir que as pessoas envelheçam com capacidade de aprender, de fazer escolhas, de manter vínculos afetivos e de participar plenamente da vida em comunidade.
Construir essa realidade exige que a saúde cerebral deixe de ser vista como um tema restrito aos consultórios e passe a ocupar o lugar que merece nas políticas públicas, na educação e na rotina das famílias. Porque o cérebro que teremos amanhã começa a ser cuidado hoje.
*Patrícia Lessa é diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, atua há mais de uma década no desenvolvimento de programas de estimulação cognitiva e aprendizagem ao longo da vida. É pós-graduada em Neuroaprendizagem, Psicopedagogia e Gerontologia.*