“A Inteligência Artificial é, sem dúvida, uma das maiores transformações do século XXI. Assim como a Revolução Industrial mudou profundamente a forma como trabalhamos, produzimos e vivemos, a revolução digital já está remodelando a economia, a educação, a política, a cultura e as relações humanas.
Diante dessa nova realidade, o Papa Leão XIV escolheu esse tema para sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas. A encíclica reconhece os enormes benefícios da inovação científica e tecnológica. No entanto, faz um alerta importante: o progresso só pode ser considerado verdadeiro quando está a serviço da dignidade humana, do trabalho digno e do bem comum.
O Pontífice é enfático ao pontuar que a pessoa humana deve permanecer no centro de todo processo de inovação. Leão frisa que a Inteligência Artificial pode ampliar capacidades, acelerar descobertas, melhorar serviços e criar novas oportunidades. Mas ela não substitui a responsabilidade moral, a empatia, a capacidade de cuidar do próximo. Por isso, o desenvolvimento tecnológico não deve ser medido apenas pela eficiência ou pela produtividade, mas pela sua capacidade de promover mais justiça, inclusão e dignidade.
Hoje, poucas empresas controlam volumes gigantescos de dados, influenciam comportamentos, algoritmos, moldam o debate público e possuem capacidade crescente de interferir em processos sociais, econômicos e políticos. Nesse contexto, a tecnologia se afasta de princípios éticos, correndo o risco de que a lógica do lucro, da vigilância ou do controle prevaleça sobre o interesse das pessoas. É preciso que governança das novas tecnologias seja orientada pela transparência, responsabilidade e participação social.
Outro ponto central é a preocupação com aqueles que podem ficar para trás nesse processo de transformação tecnológica. A Inteligência Artificial criará novas oportunidades, mas também exigirá novas competências. Sem políticas de inclusão, capacitação e acesso à tecnologia, as desigualdades existentes podem se aprofundar ainda mais. Por isso, investir em educação digital, qualificação profissional, conectividade e formação tecnológica não é apenas uma agenda econômica. É uma exigência de justiça social. O futuro não pode ser privilégio de poucos; ele precisa ser construído e compartilhado por todos.
Nesse contexto, o Ceará reúne condições excepcionais para participar ativamente da revolução tecnológica em curso. O Estado conta com universidades públicas de excelência, centros de pesquisa, polos de inovação e uma juventude cada vez mais conectada com as transformações do mundo digital. Temos potencial para nos tornar referência nacional no desenvolvimento e na aplicação da Inteligência Artificial. Mas esse avanço precisa estar alinhado a um projeto de desenvolvimento humano.
A tecnologia deve fortalecer a educação, qualificar trabalhadores, impulsionar a produtividade, reduzir desigualdades regionais e criar oportunidades tanto na capital quanto nos municípios do interior.”
Acrísio Sena
Históriador e Dirigente do PT
