
Nos últimos dias de dezembro, um encontro fora da agenda oficial do Planalto expôs um reposicionamento silencioso no tabuleiro político. Ciro Nogueira conversa com Lula em um encontro realizado no dia 23 de dezembro do ano passado, na Granja do Torto, fora da agenda oficial do presidente. A reunião, descrita como cordial por participantes, contou com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e buscou reduzir tensões acumuladas desde o período em que o senador comandou a Casa Civil no governo Jair Bolsonaro.
Segundo relatos, o Ciro Nogueira conversou com Lula com foco direto no cenário eleitoral do Piauí, estado governado pelo PT e onde estarão em disputa duas vagas ao Senado em 2026. A conversa ocorreu sob discrição, com preocupação explícita sobre vazamentos, e foi confirmada por interlocutores de ambos os lados.
Interlocutores indicam que o senador apresentou uma proposta para facilitar sua renovação de mandato. A ideia seria o Planalto concentrar apoio em apenas um nome ao Senado, o emedebista Marcelo Castro, reduzindo o campo de disputa. O arranjo, segundo aliados, diminuiria o risco de confronto direto com candidaturas governistas.
Em troca, Ciro sinalizou que o Progressistas não atuaria para dificultar a estratégia presidencial no estado. O desenho inclui a promessa de não hostilizar o governo e preservar canais institucionais em Brasília. Nesse contexto, o Ciro Nogueira conversa com Lula sem formalizar compromissos públicos.
O peso do Piauí no tabuleiro é conhecido. Em 2022, Lula obteve 76,8% dos votos válidos no segundo turno, o que reforça a avaliação de que o apoio do Planalto amplia chances eleitorais locais.
Reaproximação política e neutralidade nacional
A conversa também tocou na eleição presidencial. Um aliado de Nogueira afirmou que a contrapartida envolveria neutralidade do PP, evitando aliança formal com o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro. O tema ganha relevo diante da federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, que ainda aguarda validação do TSE e tende a atuar de forma conjunta.
Durante o encontro, o senador destacou ter reconhecido a vitória de Lula em 2022 antes de outros aliados do bolsonarismo, gesto lido como sinal de previsibilidade institucional. Aliados do presidente relatam simpatia à proposta, embora sem decisão fechada.
Ciro Nogueira conversa com Lula sob resistência interna
A articulação enfrenta barreiras no PT do Piauí. O presidente estadual da legenda, Fábio Novo, lembrou acordos passados e alertou para riscos políticos. Lideranças nacionais também demonstram cautela. O partido já trabalha a pré-candidatura do deputado Júlio César (PSD). A articulação envolve o presidente da sigla, Gilberto Kassab.
Mesmo assim, Ciro Nogueira conversa com Lula apoiado por uma rede de prefeitos locais, inclusive petistas, fator que mantém o senador competitivo. O episódio revela um tabuleiro em ajuste, no qual pragmatismo eleitoral e resistências partidárias avançam em paralelo.