
Quando Bad Bunny subiu ao palco do intervalo do Super Bowl, um dos eventos de maior audiência do planeta, o espetáculo ultrapassou a lógica do entretenimento. Com um repertório integralmente em espanhol, referências diretas à identidade latino-americana e um discurso simbólico sobre pertencimento, o artista porto-riquenho transformou o maior palco da cultura esportiva dos Estados Unidos em uma arena pública de disputa cultural, política e simbólica — com impactos que vão do turismo ao streaming, passando pelo debate jurídico sobre cidadania e democracia.
Durante a apresentação, Bad Bunny entoou sucessos como Tití Me Preguntó, Yo Perreo Sola, VOY A LLeVARTE PA PR, BAILE INoLVIDABLE e NUEVAYoL, encerrando o show com DtMF. Em um dos momentos mais comentados da noite, o cantor repetiu a frase “God bless America” e, em seguida, citou todos os países do continente americano, inclusive o Brasil. encerrando com a mensagem “Together we are America” (juntos somos América) — gesto interpretado como um reposicionamento simbólico do conceito de América para além da hegemonia estadunidense.
Para Rose de Melo Rocha, professora de pós-graduação em Comunicação e Consumo da ESPM, a repercussão do show evidencia que o entretenimento nunca foi neutro.
“A cultura pop, a música, a televisão e o cinema sempre envolveram a produção e a disseminação de valores. O entretenimento é um lugar central de disputa e negociação de pautas coletivas. Trata-se de uma manifestação cultural que constitui uma verdadeira arena pública”, afirma.
Fred Lucio, antropólogo e professor de Comunicação e Publicidade da ESPM, define a apresentação como um gesto anticolonial. “Foi um show de crítica ao processo de iluminação que a Europa projetou sobre a América. Bad Bunny questiona uma ideia única de civilização e reposiciona os povos latino-americanos como sujeitos centrais dessa história”, analisa.
A resposta veio rapidamente. Após o espetáculo, Donald Trump classificou a performance como “uma afronta à grandeza dos Estados Unidos” e um “tapa na cara do país”, ampliando ainda mais a polarização em torno do show.
Cidadania americana, identidade latina e contradições legais
O debate cultural reacendeu também discussões jurídicas. Embora Bad Bunny seja porto-riquenho, ele é, legalmente, cidadão dos Estados Unidos. Desde 1917, com a promulgação da Lei Jones-Shafroth, todos os nascidos em Porto Rico possuem cidadania americana.
Segundo Fernando Canutto, especialista em Direito Internacional, trata-se de uma condição singular.
“Porto Rico é um território não incorporado. Seus habitantes têm passaporte americano, podem circular livremente pelo país, mas não possuem plenos direitos políticos enquanto residem na ilha”, explica.
Eles não votam para presidente e não elegem representantes com voto no Congresso, apesar de contribuírem economicamente e poderem servir às Forças Armadas.
Nesse contexto, a apresentação de Bad Bunny expõe uma contradição central: cidadãos americanos sem voto pleno, frequentemente confundidos no debate público com imigrantes, apesar de sua condição legal distinta. É ou não é pura colonização?
Do palco global ao boom do turismo em Porto Rico

O impacto simbólico do artista também se traduz em números concretos. Dados da plataforma Civitatis mostram que as reservas de passeios e atividades em Porto Rico cresceram 234% em 2025 em relação a 2024, impulsionadas pela visibilidade internacional da cultura porto-riquenha.
“A presença de artistas globais conectados às suas raízes ajuda a colocar destinos como Porto Rico no radar de viajantes que buscam identidade, experiência e história”, afirma Alexandre Oliveira, Country Manager da Civitatis no Brasil. Segundo ele, a vitória histórica de Bad Bunny no Grammy — como primeiro artista a vencer Álbum do Ano com um disco inteiramente em espanhol — somada ao Super Bowl, consolidou a ilha como tendência turística para 2026.
Entre as experiências mais reservadas estão o free tour por San Juan, excursões às ilhas de Culebra e Icacos, visitas ao Parque Nacional El Yunque, passeios por lagoas bioluminescentes e aulas de salsa, reforçando a convergência entre natureza, história e cultura.

Streaming em alta e consolidação global da música latina
O reflexo imediato do show também foi sentido no consumo musical. Após a apresentação no Super Bowl, o álbum Debí Tiras Más Fotos alcançou o topo da Deezer, consolidando Bad Bunny como o artista mais ouvido da plataforma no período.
Segundo a Deezer, o Top 10 do cantor após o evento foi liderado por DtMF, seguido por BAILE INoLVIDABLE e NUEVAYoL. O espetáculo contou ainda com participações de Lady Gaga e Ricky Martin, ampliando o alcance do show para além do público latino.
Ao se tornar o primeiro artista de língua espanhola a protagonizar o intervalo do Super Bowl, Bad Bunny não apenas fez história na música, mas redefiniu os limites do palco global. Seu show demonstrou que cultura pop, política, identidade e mercado não apenas coexistem — hoje, caminham juntos.